Historial

Breve Historial

A 15 de Agosto de 1498, em Lisboa, surge a primeira Misericórdia portuguesa em resultado da especial intervenção da Rainha D. Leonor, Regente do Reino, por ausência do Rei, mas é a D. Manuel I e aos membros da casa real que se atribuí a difusão por todo o reino. Diversos autores referem que durante o reinado de D. Manuel, este circulou por diversas localidades, cidades e vilas, tendo promovido a fundação de Misericórdias nessas localidades, enviando cartas ou emissários munidos de cópias do Compromisso (Estatutos).

A data da fundação da Santa Casa da Misericórdia do Crato, está por determinar por não se encontrar o Compromisso inicial, mas tudo aponta para que tenha sido anterior a 1520, já que nessa data é atribuída, pelo Rei D. Manuel I, à Misericórdia do Crato, a “esmola de 4 arrobas de açúcar anuais”, bem como o facto do Prior do Crato (1508 a 1522), D. João de Meneses, Conde de Tarouca, ser muito próximo do Rei D. Manuel I, a que não deve ter sido alheio o fato do rei escolher o Crato para a celebração do seu terceiro casamento em 1518.

Baseada no Compromisso, a sua missão é espiritual e corporal, sintetizadas nas 14 obras de misericórdia. Os Irmãos anunciavam, o Evangelho com palavras, mas também com obras concretas, testemunhadas através de atitudes cristãs.

No dia 2 de Julho, dia de Nossa Senhora da Visitação, os irmãos em número limitado de cem, cinquenta de Primeira Condição e cinquenta de Segunda Condição, procedem à eleição anual de 13 homens, o Provedor e mais seis de Primeira Condição (fidalgos, clérigos, doutores, grandes senhores da terras) donde será eleito o Escrivão e mais seis de Segunda Condição (mestres de ofícios, pequenos agricultores) donde será eleito o Tesoureiro.

A estes homens cabe recolher as esmolas, administrar os bens (na sua maioria, fruto de doações), gerir o hospital e a botica, mas sobretudo apoiar os mais necessitados, pobres, presos e doentes, proceder ao enterro dos mais carenciados.

Dotar as órfãs (atribuir um dote a raparigas pobres órfãs para que se possam casar), tem uma estrutura própria, gerida por um grupo de Irmãos eleitos para o efeito, a quem cabe escolher as órfãs a ser dotadas cada ano e gerir a fazenda doada pela benfeitora, D. Brites de Abreu.

Em paralelo, cabe aos irmãos apoiar espiritualmente os mais necessitados dentro dos princípios da fé e moral cristã, na celebração de missas e procissões, nas cerimónias dos enterros, no acompanhamento de condenados à morte.

No Crato ao longo dos séculos destacam-se dois grandes momentos para a irmandade, a Semana Santa com a procissão das Endoenças e o sermão, e a festa de Santa Isabel (Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel).

Nossa Senhora da Visitação, orago e festa da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia da Vila do Crato, até finais do séc. XIX, está representada num painel, que se julga ser da igreja original (séc. XVI-XVII), no altar lateral da igreja da Misericórdia e no seu estandarte.

Dos Provedores e Irmãos que ao longo dos séculos administraram a Santa Casa da Misericórdia do Crato, destacam-se os descendentes e familiares do descobridor da India Vasco da Gama, Fidalgos e Cavaleiros da Ordem de Cristo, os Caldeira de Abreu, Castelo Branco e Gama Castelo Branco.

Património Cultural

Acervo Documental

A forma de organização da Santa Casa, a constituição das Mesas Administrativas, Inventários, Receitas (atribuição anual de “pão” por Sua Alteza Real, foros, doações, funerais, legados, etc.) e Despesas (esmolas e assistência a presos, doações a diversas instituições religiosas, funerais de pobres, honorários e contratos, compra de bens para o hospital, alimentação dos doentes, obras/construção da igreja e hospital, etc.) estão registadas, anualmente, nos cerca de duas centenas de “Livros de Receitas e Despesas”, de 1621 a 1919.

Para além destes, destacam-se os 3 “Livros de Irmãos” (1663, 1703, 1775), “Livros do Tombo de propriedades”, “Livro de Eleições”, “Livros de dotação das órfãs”, entre outros. num acervo de cerca de 400 livros e documentos, do séc. XVI (1505) ao séc. XX (1942).

Estes documentos, ainda em análise, permitem reconstituir a organização da Santa Casa, constituição da quase totalidade das Mesas Administrativas (Provedor, Escrivão, Tesoureiro e Mesários) desde o Ano Económico de 1621-1622 até 1942, como também inferir sobre acontecimentos históricos, sociais e religiosos da vila do Crato, nomeadamente a “invasão dos castelhanos” (exército de D. João de Áustria) no dia 30 de Junho de 1662, as invasões francesas, entre muitos outros, bem como, a sua capacidade de organização após os momentos difíceis e o modo de vida da sua população.

Permitem, ainda, reconstituir a primitiva igreja e hospital, na Rua da Misericórdia. A edificação da atual igreja e hospital, pode ser acompanhada passo a passo, desde os alicerces, cantarias, enfermarias, altares, talha dourada, sacrários, imagens, de que se destaca a de Nossa Senhora da Piedade.

Igreja da Misericórdia e edifício adjacente

A atual Igreja da Misericórdia, edificada no lugar da primitiva igreja, de que se mantem a Torre Sineira, destruída por ser exígua e não servir aos propósitos da Irmandade, inicia a sua construção no ano económico de 1729-1730, em que é Provedor António Caldeira de Abreu e concluída em 1743 sendo Provedor Diogo Caldeira de Abreu. Luís de Miranda e Manoel Lopes são os Mestres pedreiros da igreja nova.

Até ao inicio do século XIX, sofre várias intervenções de melhoramento, quer na Igreja como no Hospital e Consistório, nele trabalhando vários oficiais pedreiros, entalhadores, douradores, estofadores e canteiros como o mestre entalhador José Lourenço da Santa da cidade de Portalegre, que faz o retábulo de madeira entalhada do altar da visitação (1764 – 1765), o mestre pintor Manuel José de Morais da cidade de Portalegre que pinta e doura a Bancada dos dois altares colaterais e os três arcos das três capelas da igreja (1773 – 1774), mestre António Xavier da Mata que faz as dez imagens do retábulo do Altar Mor.

A imagem de Nossa Senhora da Piedade, no Altar Mor, mandada fazer em Lisboa, através do Beneficiado João Martins Velez, da Basílica de Santa Maria Maior, no ano económico de 1774-1775, em que é Provedor o Doutor Pedro Mendes de Reboredo e Matos, tendo custado 62400 reis. De igual modo, foi mandada fazer em Lisboa, a banqueta do Altar Mor feita pelo mestre Elias Francisco Xavier e dourada por Luís dos Santos Avila.

Convento de Santo António
O Convento de Santo António, da Ordem dos Frades Menores, inicia a sua construção em 3 de Maio de 1602, mandado erigir por Frei Leonardo de Campos, filho de António de Campos, vedor da fazenda do Algarve e cavaleiro do hábito de Cristo, à custa de cuja fazenda vinculada em morgado se fizeram as obras, para a sua construção e manutenção contribuiu também a Câmara do Crato.

As obras de edificação atravessaram, no seu início, um período de grandes atribulações, o que motivou a intervenção direta de Filipe III que ordenou a continuação dos trabalhos, por alvará dado em Valladolid, a 23 de Setembro de 1603. No dia 3 de Abril 1609, foi rezada a primeira missa, e a comunidade franciscana conta já com a presença permanente de seis religiosos. 

O Convento de Santo António e a respetiva cerca, é doado, no dia 17 de Outubro 1841, pela Rainha D. Maria II, após a extinção, em 1834, das ordens religiosas à Santa Casa da Misericórdia do Crato. Neste edifício funciona presentemente, a valência Grandes Dependentes, a Farmácia da Misericórdia e o Centro de Saúde do Crato.

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